No reino sufi

Há muito tempo, eu me lembro de ter visto uma cena dos dervixes rodopiantes e aquilo me fascinou, que cena de grande beleza… Passou muito tempo e, quando estava pesquisando a cidade, vi que existiam alguns lugares em que a cerimônia sufi (uma corrente mística islâmica), chamada sema, era aberta ao público.

Na verdade, a cidade base da ordem mevlevi - a mais conhecida ordem sufi - é Konya, onde viveu e se estabeleceu Rumi, teólogo e fundador da ordem no século XIII. Mas ficam em Istambul também alguns mosteiros, como o Mosteiro Mevlevi em Galata, onde o cenário é perfeito para entrar no espírito da cerimônia.

(foto de www.igougo.com)

Infelizmente o mosteiro estava em reformas e fui para a segunda alternativa. Aliás, alternativa mesmo: um mosteiro num bairro distante de Istambul, poucos turistas…mas o meu timing na cidade não permitia (informações com o pessoal da Les Arts Turcs).

A terceira opção era uma cerimônia numa das salas da estação de trem de Sirkeci, à beira do Corno de Ouro. Essa era a estação final onde parava o lendário Expresso do Oriente. Àquela época os glamurosos passageiros deveriam parar neste restaurante para se refrescar ao sair do trem…

…antes de cruzar a ponte de Galata, ali pertinho, rumo ao Hotel Pera Palas, do mesmo grupo. Puro luxo.

Hoje Sirkeci é base para várias linhas urbanas de trem e também para trens com trajetos longos. Nada lembra aqueles tempos áureos, mas para mim estações de trem têm um apelo irresistível, herança do meu querido pai, que adorava conferir as máquinas, ver o fluxo de pessoas e curiosar sobre os destinos…

Neste final de tarde, a velha locomotiva da TCDD (a companhia estatal turca de trens) estava acoplada a uma série de vagões talvez tão antigos quanto, da OSE (a sua equivalente grega), num roteiro Istambul-Thessaloniki que depois seguiria seu caminho com muitos turistas orientais a bordo.

Já havia fila para entrar no salão e pegar os lugares da frente…apesar de ter conseguido um bom lugar, as fotos ficaram péssimas :roll:  , mas seguem apenas para dar uma idéia do ambiente.

A primeira parte da apresentação é de música sufi, instrumental. Ali já se percebe um pouco o tom solene: a percussão, o toque oriental, o coro. Logo em seguida entram os dervixes, silenciosamente, portando a roupa tradicional da cerimônia, onde cada peça tem significado: o chapéu pontudo representa a lápide do ego (as lápides em cemitérios muçulmanos têm esse formato) e a saia branca rodada é a mortalha do mesmo. A entrada é feita com uma longa capa preta e, quando cada dervixe chega ao seu lugar de início, ela é retirada, simbolizando o renascimento do espírito. Um dos pontos essenciais para o rito sufi é a negação do ego para que se possa entrar em contato com o divino.

E então…começam o movimento de rodar, as mãos cruzadas no peito vão subindo como em um balé, os braços se desenrolando até se esticarem na altura da cabeça, a direita virada para o céu, para receber o amor divino, a esquerda para baixo, distribuindo esse amor entre os presentes à cerimônia e estendendo a toda a humanidade. Cada um tem sua vez de começar, até que todos estejam realizando um rodopio suave, contínuo.

O processo todo é longo e cheio de detalhes e ele se repete algumas vezes durante cada cerimônia. O girar é ininterrupto e é difícil acreditar que eles possam realizar o movimento durante tanto tempo, equilibradamente: somente o transe explica poderem girar sem perderem o equilíbrio, com tanta harmonia. Pode parecer que o tédio toma conta, mas o efeito é hipnótico, ao ver o efeito e os detalhes de movimento de cada dervixe…um em especial era tão concentrado e leve que quase captava toda a atenção. Também não há como não se deixar tocar por essa jornada espiritual rumo ao divino, que é a essência da sema.

A cerimônia termina e, um a um, vão deixando o salão…todos saem em silêncio, ainda sob a impressão do que se viu e ouviu. Para manter o espírito da noite, nada como sentar no banco da estação a tempo de ver, a partida do trem ao som da locomotiva e seus apitos, todo ele sumindo na curva, no escuro…

Sultanahmet: tudo acontece por aqui

Enfim, hora de ver os dois maiores símbolos de Istambul, ícones desta cidade que pode se gabar de ter duas das atrações interessantíssimas: Santa Sofia e Mesquita Azul.

As duas estão em todos os cartazes de divulgação turística e com certeza serão aquelas que você já deve ter visto nas primeiras páginas de qualquer matéria sobre Istambul em revista de turismo. E com razão, é difícil sair do clichê aqui: as duas formam um conjunto belíssimo, gigantesco e harmonioso, divididas pela deliciosa praça de Sultanahmet.

Começando pela incomparável, fantástica, única (a quantos clichês é permitido o uso a uma blogueira, hein?  ;-) ): Santa Sofia.

As filas já estão a todo vapor logo cedo, os ônibus estacionados em frente, mas ela é grande (grandiosa é a melhor palavra) e acolhe com calma turistas de todas as nacionalidades, guias nas mãos ou à frente, com guarda-chuva ou bandeira, explicando tudo tintim por tintim. Santa Sofia, ou Ayasofya em turco, é uma atração turística com tudo a que se tem direito: muitos fãs e toda a razão em tê-los.

É uma construção que vem embasbacando pessoas há quase quinze séculos, pela sua beleza, monumentalidade, engenhosidade. Desde que foi planejada pelo imperador bizantino Justiniano para ser a principal igreja ortodoxa da capital do império e completada em 537 d.C., Santa Sofia permaneceu durante quase um milênio como a maior construção cristã do mundo. E teria ainda sido por mais tempo se não fosse pela conquista de Constantinopla pelos otomanos em 1453 (Vocês sem lembram? Queda do império romano do Oriente? Pois é, voltei ao meu tempo de colegial.) Foi aí que o principal templo cristão da principal cidade do mundo, na época, foi transformada em mesquita.

Muita coisa mudou em Santa Sofia com esse evento histórico: a construção de minaretes, alterando a estrutura externa do edifício…

…a adição de um mihrab, um minbar e outras estruturas próprias ao funcionamento da mesquita, e a cobertura de seus magníficos mosaicos dourados, retratando cenas bíblicas, com gesso – já que o tema não condizia com a condição atual de mesquita, além do islã proibir a representação de figuras humanas.

No início do século XX mais uma mudança: Atatürk (sobre quem eu já falei aqui neste post) decide que ela não será mais catedral cristã ou mesquita e transforma Santa Sofia em museu. E a partir daí começaram alguns processos de restauração que, graças a eles, turistas como eu e você podem ver alguns dos mosaicos mais lindos do mundo, recuperados depois de séculos em reclusão.

Mas vamos começar de maneira correta, o que significa admirar calmamente o seu exterior. Ela não passa despercebida, é uma senhora robusta e bonita em seu rosado de vários tons…Mas gostoso é mesmo se deixar levar por onde os olhos pararem: na cúpula imensa, na sua cor esmaecida, nos minaretes - diferentes uns dos outros. No próprio gigantismo. (Bom mesmo é poder observá-la em todas as luzes: de manhã e no final da tarde, com sol e no finalzinho da chuva…)

Uma vez dentro dos portões, dá para ver melhor os contrafortes adicionados ao longo do tempo para sustentá-la, uma vez que o edifício esteve muito dilapidado em várias etapas de sua vida. É possível também ver as escavações mostrando as basílicas anteriores à atual construção. Mas quando se adentra o nártex exterior e o interior é que se começa a ter idéia das dimensões da Ayasofia, além de oferecer ainda, como um aperitivo, um lindo mosaico sobre o Portão Imperial, de Cristo Pantocrator (onipotente).

Mas a passagem pelo Portão, em uma certa época restrita aos imperadores, revela uma das mais engenhosas obras já realizadas: a nave, onde a enorme abóboda flutua, apoiada em semi-abóbodas menores, padrão que ainda continua por mais dois patamares, até se ver que não existem pilares aparentes sustentando todo esse exagero: Santa Sofia foi planejada para que desse a impressão de estar sustentada pelos céus, e não plantada firmemente em terra.

(Difícil uma foto boa da abóboda, segue uma emprestada: www.tufts.edu)

A nave praticamente não ocupada (a não ser pelos andaimes, claro), juntamente com a luz que entra suave e rarefeita, ajuda a sentir a beleza do ambiente e é inevitável imaginar como teria sido a reação daqueles que estiveram presente à sua inauguração: sua incredulidade e maravilhamento.

Mesmo com os belos acréscimos islâmicos, o melhor aqui é se deter nos mosaicos: de longe o mais impressionante é o Deësis, do século XIII. O rosto de Cristo é fascinante, não se lembra do material de que foi feita a obra de arte, tal é o nível de detalhes e a sua expressão.

Ele fica na galeria superior, onde se pode ter também uma visão melhor da Virgem com o menino Jesus na principal semi-abóboda …

…além de outros mosaicos de parar e babar: o da Virgem com os imperadores João e Irene Comnenus, lindas expressões, serenas – século XII…

…e outro um século mais antigo, retratando Cristo Pantocrator com a famosa imperatriz Zoe e o seu último marido, Constantino. (Contam as lendas que o afresco teve o rosto masculino modificado algumas vezes para acompanhar a troca de maridos da poderosa e difícil Zoe…)

Ainda existem outros menores e com padrões geométricos, mas não se deve esquecer de virar para trás na hora de sair: um belo mosaico está na última câmera antes de voltar ao jardim – a Virgem e o Menino ladeados por  Constantino e Justiniano (este último com um modelo de Santa Sofia, consagrando-a).

Depois de tão importante visita e ainda ruminando o que tinha acabado de ver, apenas atravessei a rua para conferir um dos lugares sobre o qual eu mais tinha curiosidade: Yerebatan Sarnıcı ou a Cisterna da Basílica.

Construída por Justiniano no século VI (de novo ele…), ela armazenava água vinda de uma região próxima ao Mar Negro, através de um aqueduto que pode ser observado ainda hoje, pelo menos em parte (próximo à mesquita Süleymaniye). Esse reservatório de 80 mil metros cúbicos de água supria principalmente o Grande Palácio bizantino e boa parte do que é hoje o bairro histórico.

Pensar que essa espetacular obra tenha ficado desconhecida por tanto tempo…até o século XVI, quando um historiador francês ouviu histórias de moradores que coletavam água nos seus porões, misteriosamente, muitas vezes os baldes vindo com peixes! Sua entrada foi descoberta, mas infelizmente para a cisterna, a população e as autoridades não deram a devida atenção e durante alguns séculos virou depósito de lixo e outras coisas mais. Finalmente, em meados do século XIX começaram as restaurações e limpezas, que se desenrolaram até o final do século passado, quando foi aberta ao público em 1987. Até os peixes voltaram a dar o ar da graça…

Visita-se a cisterna por passarelas, atravessando boa parte dela através de suas mais de 300 colunas, dos mais diversos estilos arquitetônicos, mais algumas sem nenhum estilo e outras diferentonas, como a dos relevos de lágrimas. Existem ainda duas Medusas num canto da estrutura, sustentando colunas: uma foi colocada de ponta-cabeça, a outra de lado. Não se sabe o porquê dessa disposição, mas as duas moças ajudam a ressaltar o ambiente misterioso e calmo, ressaltado por uma bela iluminação, pelas gotas de água que de vez em quando caem na pele e pelas sombras dos movimentos dos peixes, na água logo abaixo.

Da cisterna até a Mesquita Azul é uma caminhada curta atravessando a agitada praça de Sultanahmet, especialmente se é feriado: famílias inteiras passeando entre as árvores, não resistindo ao cheiro delicioso das castanhas assadas…

…ou às fotos junto à fonte. É um lugar privilegiado para se sentir rodeado de istambulitas aproveitando o tempo livre, ver as crianças brincando, moços e moças numa paquera sutil…

O trecho é curto e interessante, e logo se está aos pés da Mesquita Azul, opondo-se à Santa Sofia, competindo entre si e completando-se mutuamente.

Olhando para a dupla, é difícil imaginar que uma construção tenha sido completada mais de mais mil anos depois da outra, dada a escolha de sua localização e a coincidência de volumes e formas. Que na verdade não foi uma coincidência, mas uma vontade expressa do sultão Ahmet de construir um centro religioso que fizesse frente à grandiosidade e sofisticação arquitetônica de Santa Sofia. Para isso, contratou um arquiteto que foi discípulo do grande Sinan e supervisou ele próprio as obras para garantir a magnificência do projeto.

Apesar de não ter a leveza da abóboda de Santa Sofia, a grandiosidade da mesquita Süleymaniye e os azulejos preciosos da Rüstempaşa, a mesquita do sultão Ahmet tem uma beleza incrível, graças em boa parte à quantidade absurda de lindos azulejos que recobrem suas imensas áreas internas e cuja cor predominante a batiza. Se dependesse de mim, o nome teria sido bem diferente, já que o vermelho não fica atrás e faz uma composição de cores fascinante com o badalado azul.

Além da beleza que está na cara, a Mesquita Azul também tem um clima muito interessante, uma mistura pacífica de fiéis orando e turistas…turistando, uma agitação contínua no ar, dando a impressão de este ser um lugar querido entre todos. Talvez eu tenha sido influenciada pelo fato de esta ser a minha primeira mesquita ou talvez fosse a maciez do carpete embaixo dos meus pés ou o eco do muezim ainda reverberando dentro da minha cabeça depois de ter me acordado bem antes do que eu tinha planejado…

Santa Sofia é etérea em comparação, mas a Mesquita Azul ganha em vivacidade. Enfim: é um lugar esplêndido, que fica ainda mais admirável quando se conhece todo o complexo, que inclui ainda um pátio do mesmo tamanho que o interior da mesquita…

…com portais e detalhes lindamente ornamentados…

…a tradicional fonte para as abluções…

…e de onde se pode apreciar mais de perto os famosos minaretes e também polêmicos na época de sua construção: com seis torres, a Mesquita Azul rivalizava apenas com Meca, o que foi considerado como pretensão por muitos.

A sensação gostosa continua no jardim, lindo com suas cores outonais, um sol que brilhava depois da chuva e a visão sempre bem-vinda da ‘concorrência’ logo a frente.

É bom lembrar que a Mesquita é um local de oração e seu acesso é controlado, não sendo permitida a entrada de turista durante um dos cinco horários de oração durante o dia. Deve-se manter o silêncio, pois mesmo fora deles há sempre muita gente orando, em locais especialmente reservados (homens e mulheres cada qual com o seu, sendo o delas sempre no fundo…o deles no centro do salão). Os pés estarão necessariamente descalços (eles providenciam um saquinho para carregar seus sapatos) e o uso de véus para mulheres é opcional, mas uma medida simpática, assim como deixar uma contribuição na saída.

Este centrinho é todo compacto, cheio de atrações de impacto e o Hipódromo é mais uma delas, correndo ao longo da própria mesquita e do parque de Sultanahmet. Essa área alongada deveria estar para os impérios bizantino e otomano assim como a Ágora estava para a vida política e cultural da antiga Atenas: muitos eventos cruciais nesse decorrer da história tiveram seu lugar ali. A área hoje não deve lembrar em nada o que era originalmente, tanto em seu tamanho como formato, composição…: os seus elementos de destaque hoje são três colunas: um obelisco egípcio impecável, parecendo ter sido esculpido hoje (na verdade tem mais de três milênios), uma coluna grega em espiral, do V século a.C. (e com boa parte de sua estrutura desaparecida) e uma obelisco rústico, de origem desconhecida.

(A chuva quando passava pelo Hipódromo e a conseqüente falta de fotos me obrigou ao empréstimo de uma: foto de coolistanbultours.com)

Do outro lado da Mesquita Azul está o Arasta Bazar, antigas cavalariças que hoje formam um corredor agradável de lojas, especialmente algumas com excepcionais cerâmicas ou peças bordadas em seda de babar. O Arasta é uma oportunidade mais light de compras do que o Grand Bazaar…também pode ser um treino para este último ;-)

Sultanahmet é inteira cravada de atrações e são tantas que é necessário estabelecer prioridades. Além destas mais famosas, ainda é possível (e imperdível) visitar todo o complexo Topkapi (que exige um dia para uma visitação completa e merece um post próprio), o Museu de Mosaicos, o Museu de Arqueologia, o Museu de Artes Islâmicas, a Küçük (pequena) Aya Sofia, as tumbas na Divan Yolu. Ou simplesmente se perder nas pequenas ruas que envolvem o centro do bairro, observando especialmente os simpáticos prédios de madeira, bem característicos. E ainda tem as escavações do Grande Palácio de Constantino…quem sabe daqui a pouco o bairro não ganha mais uma atração? Não que precise: só Sultanahmet já preenche uma viagem inteira…

Para entrar no clima…grandes surpresas

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O primeiro dia de verdade em Istambul deve ser sempre dedicado ao bairro histórico de Sultanahmet e às duas grandes: Santa Sofia e Mesquita Azul, certo? Bem, preferi fazer um pouco diferente e decidi deixar o dia correr mais tranqüilo, caminhando aqui e ali. Tinha tempo suficiente para me dar ao luxo de um dia mais relaxado, antes de partir para as grandes atrações.

E, de qualquer maneira, veria a praça central de Sultanahmet todos os dias, estando hospedada a apenas dois quarteirões da embasbacante Santa Sofia: passaria pelo ‘centrinho’ sempre a caminho do ponto do bonde. Devo dizer que essa rotina aumentou muito o prazer da minha passagem pela cidade…Já outro pedaço de rotina não chegou a ser totalmente absorvido: o poderoso chamado da Mesquita Azul para a oração, às seis da manhã :mrgreen:

Seguindo a pé até o Grand Bazaar (Kapalıçarşı), levei cerca de 15 minutos desde o hotel - uma caminhada fácil pela Divan Yolu, a principal rua comercial do bairro histórico, cheia de lojas de suvenires, agências de turismo e câmbio. Passando pela tumba do sultão Mahmut, pelo célebre hammam Çemberlitaş e pela mesquita Nuruosmaniye, cheguei a um dos principais portões de entrada do complexo, que é um dos maiores e mais antigos souks do mundo, construído no século XV.

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É uma teia de ruas, dezenas de portões de entrada, mais de mil lojas, distribuídas aproximadamente de acordo com a atividade: ouro, tapetes, suvenires, cerâmica, couro, antigüidades, tecidos…Não dá para ficar indiferente ao entrar no Grand Bazaar pela primeira vez: o seu queixo caído e um sorrisinho bobo logo vão atrair os vendedores ansiosos por vender tudo o que você deseja e aquilo que você definitivamente não precisa. Não tem problema: um sorriso e um ‘não’ firme dão conta do recado e os lojistas, apesar de insistentes, são gentis.

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Aliás, algumas horas ali podem não ser tão relaxantes assim se o seu objetivo for realmente comprar: é preciso pesquisar bastante os preços e qualidade do produto, ser paciente com os vendedores e, por último, pechinchar bastante. E não tem jeito: você sempre sai da loja achando que poderia ter feito um negócio melhor, especialmente se o dono é todo sorrisos, conversas e chá depois de tudo encerrado :roll: Depois de duas experiências comprando tapetes ali e uma no Arasta Bazar (ao lado da Mesquita Azul, menor e mais tranqüilo), verifiquei que ainda preciso de muitas idas a Istambul para poder negociar decentemente :mrgreen:

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Há duas possibilidades de se explorar o labirinto e eu comecei pela mais relaxada, caminhando sem planos olhando o que desse vontade e entrando nas vielas. Só que esse plano se revelou furado quando eu sempre acabava voltando para o mesmo lugar…e aí entrou em ação o meu eu mais comum: com a cara enfiada num mapa ;-) Assim é mais fácil visitar um pouco de cada região do mercado, especialmente aquelas mais nos cantos onde os turistas quase não chegam e é mais fácil ver os locais fazendo compras.

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Mas o verdadeiro lugar de compra dos istambulitas não está na área coberta da bazar, mas no bairro de Tahtakale, que cerca sua parte norte e vai até a beira do Corno de Ouro. Passear por aqui é um choque e vai fazer o Grand Bazaar se parecer com um shopping sofisticado: ruazinhas estreitas de comércio popular, cheias de compradores. Artigos para cozinha, armas de fogo, roupas de circuncisão, bugigangas à la 25 de março ou Saara - nada turístico, mas interessantíssimo e recomendado para quem não tem frescuras.

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Quando você se dá conta, já está em Eminönü e poderia terminar a tarde ali, visitando as suas atrações, que são muitas. Como já tinha caminhado um pouco pela parte antiga, a idéia era atravessar a ponte de Galata até Beyoğlu e conhecer a ‘cidade nova’. Bem…o adjetivo ‘novo’, nessa cidade movimentada desde o século VII a.C., adquire um significado mais abrangente do que estamos acostumados a usar. Por exemplo: Galata, a região mais próxima ao Corno de Ouro, foi colonizada por genoveses desde o século XIII . Beyoğlu, mais acima, teve seu desenvolvimento especialmente no século XIX. Nada muito recente, mas pode ser se considerarmos Bizâncio / Constantinopla / Istambul.

Considerando a geografia do bairro, o melhor seria ir ao ponto mais alto (e também mais distante) e descer em direção ao Corno de Ouro. Nada melhor do pegar um dos super bondes que cortam as partes de Istambul que mais interessam: passam pela Divan Yolu, Sultanahamet, Sirkeci (onde há um ponto bem em frente à estação de trens), Eminönü, atravessa a ponte de Galata e continua margeando o lado europeu do Bósforo até quase chegar ao Palácio Dolmabahçe.

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(Para melhor visualização, clicar no mapa.)

A linha que mais interessa no mapa é a azul escura que vai de Zeytinburnu até Kabataş, o ponto final dos bondes e também para mim, que ainda pegaria o novíssimo funicular até a Praça Taksim. A passagem para cada trecho de bonde é uma ficha (token) que pode ser comprada na cabininha existente em todas as estações (procure por Jeton Gişesi)

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A Taksim é uma praça grandona e sem graça, com um monumento em estilo soviético erguido em homenagem ao onipresente Mustafa Kemal Atatürk (pai dos turcos). Para entender porque a Turquia é um país com um pé no ocidente é preciso saber quem foi esse homem e o papel que ele teve na história do país: Atatürk foi o responsável pela transformação do Império Otomano em República da Turquia (na ressaca da 1a. Guerra Mundial) e também seu primeiro presidente.

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(imagem de www.freewebs.com/medialogy)

Conduzindo uma corrente nacionalista turca, ele foi o responsável, ao mesmo tempo, por modernizar o país, transformando-o em um Estado secular. E ainda se cercou de outras mudanças que reforçariam a principal: Atatürk ainda aboliu o fez, desestimulou o uso de roupas tradicionais (inclusive véus para mulheres), substitui o alfabeto árabe pelo latino. Apesar da oposição das parcelas mais conservadoras da sociedade turca, era um governante bem-sucedido e popular, sendo que o culto à sua figura ainda é comum no país até hoje. Imagens suas são comuns em lojas, restaurantes, em áreas públicas da cidade.

Portanto, nada mais justa a homenagem em um ponto da cidade que deveria refletir bem o espírito modernizador do governo Atatürk, além de partir dali, da praça Taksim, a principal e mais famosa via do bairro de Beyoğlu: a Avenida da Independência ou Istiklal Caddesi (pronuncie djadesi).

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Seu nome antigo era Grand Rue de Pera, que era o nome do bairro na época em que os grandes edifícios em estilo ocidental foram erguidos, entre o século XIX e o começo do XX. Ali se concentrava a elite européia em Istambul (já que os otomanos ocupavam Sultanahmet) e onde ficavam as embaixadas, os liceus e residências grandiosas: muitas destas construções ainda estão ali, exibindo traços neoclássicos, ecléticos, alguns art nouveau. Nessa área é interessante manter o olhar um pouco para cima, observando as fachadas que ainda restam…

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…mas sem se descuidar do bonde histórico que percorre a avenida desde Taksim até Tünel, onde um funicular construído no final do século XIX vence o desnível até chegar num ponto próximo à Ponte de Galata.

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Beyoğlu não é um bairro com grandes atrações turísticas, mas é perfeito justamente para bater perna, fuçar as bonitas galerias, como a Çiçek Pasaji (das flores), que dá no Balık Pazar (mercado de peixes) e na Avrupa Pasaji, com lojinhas de antigüidades. Deve-se reservar tempo para sentar num café e ver o movimento das pessoas indo às compras, dos jovens andando em bandos saindo da escola…Outra opção é sentar numa Mado e pedir um dondurmaOu até preferir algo mais substancioso e nesse caso eu recomendo fortemente o Haci Abdullah: um dos mais antigos restaurantes de Istambul, confortável e tradicional, serviço simpaticíssimo (descobri o nome em turco e até mesmo inglês para várias coisas) e uma comida deliciosa (estou me lembrando de um kebab de pistache com purê de berinjelas…ai, ai.) Só não servem álcool, algo abundante na vizinha Nevizade Sokak, uma rua cheia de tavernas que ficam lotadas à noite, com locais e turistas. Peça vários mezes (comidinhas) para acompanhar o seu raki ou qualquer outra bebida que você prefira.

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Outra alternativa à descida de um trecho da Istiklal é pegar a paralela Meşrutiyet Caddesi e fazer uma visita ao belo Museu Pera. Ele nem estava no meu Lonely Planet defasado e foi uma ótima surpresa e uma decisão melhor ainda parar para ver a exposição temporária sobre a visão das artes plásticas ocidentais sobre o oriente no século XIX. Fa-bu-lo-sa. Enorme e interessantíssima, especialmente a seção retratando o harém e a vida privada, a exposição ofuscava o pequeno acervo. E aparentemente tem recebido muitas outras temporárias de fazer valer a visita.

Atravesse a rua para ter uma grande vista da cidade e de um trecho do Corno de Ouro e continue descendo até chegar a uma atração clássica do bairro: o Hotel Pera Palas. Um hotel lendário, luxuosíssimo, conhecido por receber nobreza e celebridades: talvez sua ocupante mais famosa tenha sido Agatha Christie, que passava ali temporadas, junto com os hóspedes que chegavam no não menos mitológico Expresso do Oriente. Atatürk era também hóspede habitual e tinha, assim como a escritora, o seu quarto preservado como museu. O hotel está fechado há alguns anos para restauração e espera-se que no próximo ano volte com toda a pompa e mais um pouco. Fiquei decepcionada com todos os tapumes quando cheguei ali: devia ser tão visível a minha tristeza que o guarda me deixou entrar um pouco e me guiou para ver o salão principal. Mesmo no meio de bagunça dá para perceber claramente que, com um belo trabalho, o Pera Palas tem tudo para voltar a ser um hotel e uma atração turística arrasadores. Ah, um dia ainda beber algo no bar, admirando a linda arquitetura, recuperada…para uma próxima ;-)

Acabei começando a descida íngreme do bairro de Galata, ao término da Istiklal, bem no final da tarde. Entre ruazinhas estreitas e decadentes me aparece a Torre de Galata, um restinho de Idade Média no meio do bairro, construída no século XIV pelos genoveses.

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Ainda dava tempo de curtir o dia mais um pouco antes de voltar para o hotel e descansar. Comprei o ingresso, subi pelo elevador e escadinhas claustrofóbicas até o terraço. E percebi que não estava preparada para o espetáculo que estava começando ali, naquele momento: um pôr-do-sol perfeito, tendo Istambul em 360º. Começando pela parte norte do Corno de Ouro (um ótimo ponto para observar os aviões em rota para o aeroporto)…

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…seguindo à direita com uma visão de Beyoğlu, do porto na beira do Bósforo, que se estendia em direção ao Mar Negro e ainda permitindo uma visão da Ponte do Bósforo…

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…continuando com o próprio Bósforo recebendo o Corno de Ouro à direita e seguindo seu caminho um pouco mais, até desembocar no Mar de Mármara (e aproveitando para observar a Ásia, logo ali em frente). Já na nossa frente, Sarayburnu (ou Seraglio Point), a pontinha da península histórica de Sultanahmet…

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…do qual a primeira visão que se tem é a do Palácio Topkapi e o parque Gülhane…

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…logo surgindo as duas grandes: Santa Sofia e Mesquita Azul…

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…mais um pouquinho à direita a Ponte de Galata e o bairro de Eminönü, onde se pode ver a Yeni Camii (mesquita) e o Bazar Egípcio ao lado. E completando a volta inteira.

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Não sei muito bem quanto tempo fiquei ali em cima na torre. Perdi a noção enquanto me deixava encantar e me emocionar com uma das visões mais lindas que já tive na vida. Ali em cima, sozinha, dei risada e chorei. Me lembrei dos meus queridos distantes, que eu adoraria que estivessem ali comigo dividindo aquele instante, um em especial que saberia apreciar aquele lugar como poucos (e que infelizmente não teve tempo suficiente aqui para conhecer lugar tão mágico). Fotografei muito, mas observei ainda mais, e atentamente, para gravar fundo na memória. Tive plena consciência da beleza milenar da cidade, do seu mistério, de sua grandiosidade. E também do privilégio de estar ali. E agradeci.

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Foi com muito custo que movi meus pés e desci a torre, descendo ainda mais pelas ladeirinhas sinistras de Galata até o ponto de bonde mais próximo, numa das extremidades da ponte. Na espera, mais um momento de arrepiar: um resto de luz que tocava o complexo Topkapi e os barcos cruzando o Corno de Ouro, o reflexo nas águas e um muezim distante chamando os fiéis. Deixei passar um bonde…e mais outro…

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Chegando em Sultanahmet e já me sentindo em casa nos arredores, ainda mais um presente: uma linda lua minguante pousada sobre a cúpula da Mesquita Azul. Como não se apaixonar por uma cidade dessas?

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Outubro Rosa – espalhando a idéia

Outubro Rosa

Na verdade esse post já vem bem atrasado, afinal outubro já está acabando, o mês da campanha mundial para conscientização sobre o câncer de mama (organizado no Brasil pela FEMAMA – Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama) e tema da blogagem coletiva, convocada por blogueiras como a Flavia Penido e Sam Shiraishi. Mas uma boa causa  não tem tempo nem limite e, apesar deste ser um blog sobre viagens, acredito que uma boa parte, se não a maioria, dos meus leitores é do sexo feminino (pelo menos elas são a maioria de comentaristas!). E quanto aos meninos que me lêem, com certeza têm muitas mulheres queridas e próximas que devem estar atentas.

A iniciativa do Outubro Rosa é louvável não só pela organização do evento, com ações em todo o país e ampla divulgação em diversos meios, com destaque para a internet. Ela é fundamental porque toca num ponto chave, que é a importância da mamografia para a detecção precoce, o que proporciona elevadas chances de cura. E o evento tem ainda maior impacto neste ano, quando foi a aprovada a Lei nº 11.664/2008, assegurando mamografia no Sistema Único de Saúde – SUS para mulheres a partir de 40 anos de idade.

A notícia é muito boa, mas precisa de divulgação para que seja aproveitada por quem realmente precisa: as mulheres que dependem do SUS para atendimento de saúde. Além da necessidade da notícia chegar a quem precisa, ainda deve-se exigir o atendimento que a lei estabelece e com qualidade, o que nem sempre é fácil: quem já acompanhou histórias de quem passou por infinitas visitas a postos de saúde e hospitais do SUS para fazer um tratamento ou simplesmente conseguir um diagnóstico sabe das dificuldades que enfrentam as pessoas que dependem da saúde pública.

Há que se fazer disseminar a notícia e exigir o cumprimento pelos órgãos responsáveis. Mas, mais basicamente, deve estar na cabeça de cada mulher a necessidade absoluta da mamografia anual – ainda é pequeno o número das que realizam o exame com a periodicidade ideal. O descuido tão comum derivado da famosa idéia de que é algo distante do nosso universo…até acontecer com um amiga próxima, com uma tia, com a mãe. Muito sofrimento pode ser evitado com doses de cuidado. E agora cuidado um pouco mais fácil para a maioria da população feminina.

Vale a pena entrar no site da FEMAMA e do projeto para saber mais sobre o Outubro Rosa. E passar a palavra adiante.

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Deixando o coração em Istambul

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É engraçado…a empatia inicial muitas vezes determina os rumos de um relacionamento, de que natureza for. Muitas vezes nem conhecemos a pessoa e já gostamos de pronto: só de ouvir falar, de ver uma foto…ou não vamos com a cara, direto assim.

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Comigo aconteceu também, mas com uma cidade. Istambul me conquistou de mansinho…de leituras de adolescente, de fotos vistas em revistas. Ao longo do tempo você acompanha as notícias com interesse, vê matérias inspiradoras e pensa em materializar aquela simpatia toda, que não saberia se seria mútua.

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Aí começa a pesquisa, a compra de guias (plural mesmo) e o delicioso planejamento. O que era para ser um apêndice de viagem, começa a tomar outra dimensão e, com a empolgação com o destino, até as pessoas perguntam: ‘Mas…não era mesmo para a Grécia que você estava indo?’

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A expectativa era enorme e eu não gosto disso, o decepção está sempre ali atrás da porta. Dito e feito.  Chegar em Istambul foi um choque: gente demais nas ruas (feriado…), sujeira, véus, taxista enganador, serviço inexistente no restaurante. Eu tinha subestimado a cidade. Na verdade, eu tinha alimentado fantasias de uma cidade em boa parte ocidental e Istambul foi, para mim, pura Ásia.

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No auge da crise (mau-humor também com o hotel medíocre), resolvi ver os barcos à beira do Corno de Ouro e tive que atravessar a avenida por uma passagem subterrânea: caos, caos, caos.

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No meio daquela massa e calor me deu vontade de dar risada. Eu estava sendo ingênua no meu primeiro contato com o Oriente. Admirando a Ponte de Galata e o reflexo do final de tarde nas águas, revi minhas posições e meus sonhos com Istambul e comecei a aproveitar o acontecimento maravilhoso que era estar ali, naquele momento.

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Reconhecendo o encantamento que tinha tomado conta desde sempre, tomei fôlego e, resolvida a viver aquela paixão, atravessei o Bazar das Especiarias e subi em direção a Sultanahmet…

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